Profissão comentarista

Ex-atletas olímpicos ganham protagonismo nas transmissões e tornam-se ativos comerciais na disputa dos anunciantes pela atenção dos consumidores

Redação

Por André Sender

A cada quatro anos, milhões de brasileiros se tornam especialistas por alguns dias em uma ampla variedade de esportes. É possível ver gente discutindo sobre a técnica de braçadas de um nadador ucraniano, elogiando a distribuição de bolas da levantadora da seleção chinesa de vôlei, rechaçando a velocidade com que o atleta de salto com vara dos Estados Unidos fez sua aproximação e até a escolha da música da apresentação de solo da ginasta húngara.

Grande parte do conhecimento que impulsiona essas conversas e ajuda muitos torcedores a entenderem modalidades que mal acompanharam nos últimos quatro anos e a se tornarem experts por um curto período de tempo vem do trabalho dos ex-atletas que atuam como comentaristas nas transmissões da TV, aproveitando anos de experiência no esporte para engatarem um novo trabalho, que muitas vezes pode se tornar uma nova carreira.

“Foi uma transição interessante. Em um primeiro momento você se sente um pouco como atleta ainda. Quando você faz essa transição para outra função, passa a dedicar todo aquele tempo que tinha para outra atividade. É uma mudança um pouco curiosa no início, mas depois você se acostuma. Existem diferentes tipos de transições nas vidas das pessoas e, quando isso ocorre, você precisa estar preparado. Quanto mais planejada a pessoa está, melhor você absorve”, diz o ex-nadador Gustavo Borges.

Ex-jogadores Nalbert, Fabi e Carlão: campeões olímpicos de vôlei consolidaram nova carreira como comentaristas do Grupo Globo

Dono de duas medalhas de prata e duas de bronze dos Jogos Olímpicos, ele é um dos principais nomes do grupo de comentaristas da TV Globo para a Olimpíada. O Time de Ouro, como é chamado, conta com outros nomes que foram estrelas do esporte e agora têm como missão ajudar a divulgar as modalidades, como Daiane dos Santos, na ginástica artística, Hortência, no basquete, e Fabi, no vôlei.

“O esporte é fundamental no desenvolvimento de nossas crianças. Aprende a ter disciplina, qualidade de vida. O esporte é muito importante para elas aprenderem a conviver em grupo, ter objetivos, sonhos”, afirma Fabiana Murer, campeã mundial do salto com vara e uma das recentes contratações do Time de Ouro para Tóquio 2020. Além dela, Diego Hypólito (ginástica artística), Thiago Pereira (natação), e Bernardinho (ainda ativo como treinador, no vôlei) integram a nova safra de contratados da emissora, inicialmente, para os Jogos Olímpicos de 2020. Inicialmente porque em muitos casos o job torna-se uma carreira, com os comentaristas atuando em outras competições e programas da emissora ou do canal pago SporTV.

“Não era uma área na qual eu pensava em atuar, mas tem sido algo muito bom poder falar sobre essa nova geração da ginástica, transmitir a minha emoção. É uma honra fazer parte deste grupo tão seleto de ídolos no time de comentaristas da Globo. Sou muito abençoada hoje de falar sobre o esporte que eu vivo e por descobrir essa nova etapa na minha carreira”, explica Daiane dos Santos.

A aparição em rede nacional como comentarista também impulsiona outros mercados para os ídolos do esporte. Atletas olímpicos veem a demanda por palestras motivacionais crescerem em épocas próximas aos Jogos justamente pela exposição do evento e de modalidades que muitas vezes não fazem parte do dia a dia dos contratantes em outros momentos. Essa mesma exposição serve como chamariz para marcas que querem se apropriar do momento e dos valores olímpicos, seja por meio de grandes e intrincadas campanhas publicitárias, seja de forma mais simples, escalando os ex-atletas como garotos-­propaganda de seus produtos.

Atuação flexível

Os Jogos Olímpicos em Tóquio serão os primeiros após o Grupo Globo mudar suas diretrizes para permitir que o elenco de sua equipe de esportes participe de projetos comerciais, tanto da emissora quanto independentes. Para a empresa, é uma iniciativa de aproximação das marcas patrocinadoras em suas diferentes plataformas. Para os comentaristas, oportunidade de faturar mais no momento de alta exposição.

“É uma evolução que atende um antigo anseio do mercado para o desenvolvimento de ações capazes de trafegar em diferentes telas e engajar o consumidor. Algo possível graças a uma nova visão sobre o uso de ativos da Globo para a construção de ofertas e ações publicitárias cada vez mais inovadoras e com resultados capazes de gerar valor para todos os envolvidos”, conta Manzar Feres, diretora de comercialização da Globo.

“É uma evolução que atende um antigo anseio do mercado”, explica Manzar Feres, da Globo, sobre a mudança das diretrizes para permitir o elenco de esportes em projetos comerciais

Segundo a Globo, a transmissão da Olimpíada do Japão seguirá uma lógica de complementaridade e conexão entre as diferentes mídias em que os torcedores consomem informação, com os apresentadores e atletas-comentaristas atuando nas diferentes plataformas e até ajudando a criar formatos publicitários. “Os patrocinadores terão a oportunidade de fazer parte dessa jornada completa, com um projeto comercial que integra TV aberta, fechada e ambiente digital, ampliando as janelas de contato e relacionamento com o consumidor. Esse novo olhar é parte das inovações e flexibilização das ofertas que a Globo tem levado para o mercado, reflexo de conversas com clientes e agências realizadas nos últimos anos e que têm sido traduzidas em um serviço de mídia cada vez mais sofisticado para as marcas e eficiente para suas estratégias de comunicação”, afirma a executiva.

Principal produto esportivo da Globo, o futebol já tem alguns exemplos dessa flexibilização da emissora. Em um dos cases mais célebres, o iFood simulou a entrega de um pedido de comida para o narrador Luís Roberto e os comentaristas Casagrande e Júnior na cabine de transmissão de um jogo do Campeo­nato Brasileiro, no Maracanã, em setembro de 2019. “O case com iFood é, sem dúvida, um dos grandes exemplos desse novo momento. Desenvolvido a seis mãos, com a participação ativa de equipes da Globo, agência e cliente, teve resultados bastante positivos, engajando o público e trazendo grandes resultados para a marca”, defende Feres.

Na Olimpíada, no entanto, ações como essa não devem ocorrer com os atletas do Time de Ouro por causa das rígidas regras impostas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). A entidade, no entanto, também enxerga a necessidade de flexibilização e criou dois formatos publicitários para momentos de pausas das disputas, permitindo o compartilhamento da tela entre o sinal oficial de transmissão e entregas das marcas patrocinadoras.

Mas as apoiadoras oficiais da Globo não devem ser as únicas interessadas em contar com a participação dos comentaristas olímpicos em suas ações publicitárias durante os Jogos — e as novas diretrizes comerciais do grupo permitem que os atletas se engajem em outras ações comerciais. Segundo a diretora, os patrocinadores da emissora terão prioridade no desenvolvimento de projetos com os atletas do Time de Ouro, que deverão ser avaliados caso a caso.

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